Irujo, o espanhol das “Cachaceiras”

Por Adilson Borges*
O empresário  e político Pedro Irujo, sepultado ontem  no Jardim da Saudade, aos 87 anos, encarnou como poucos a figura do imigrante que sonha voltar em definitivo à terra natal nem que seja só para morrer.
Nascido em Navarra, norte da Espanha, Irujo era brasileiro naturalizado e  morava há mais de 60 anos no Brasil – na Bahia chegou em 1963 -, onde nasceram seus dois filhos e erigiu  sólida carreira empresarial. Mas ainda exibia o sotaque que o tornou conhecido, gerando histórias como  a da pronúncia que o levava a chamar de “Cachaceiras” o bairro de Cajazeiras, em Salvador.
Ele atuou com destaque em diversos ramos, de construção civil, hotelaria a transportes especializados. No entanto,foram as empresas de comunicação, como a TV Itapoan e a Rádio Sociedade, que o ajudaram a construir paralelamente uma rápida ascensão no parlamento.
Sua influência politica consolidou-se a ponto de eleger o filho, Luiz Pedro Irujo, deputado estadual, em 1986.  E chegou ao auge ao fazer do radialista Fernando José, o mais popular da TV Itapoan,  prefeito de Salvador, em 1988.
Controverso, Irujo misturava habilmente em sua personalidade traços de avanços e recuos. O amplo espectro de partido em que atuou revela essa faceta. Foi deputado federal pelo PMDB, substituto do MDB que abrigou a esquerda no período do golpe militar iniciado em 1964; e pelos PRN, PL e PFL, o herdeiro da antiga Arena, cujos ideais sao representados hoje pelo DEM.
Apesar dos seus interesses econômicos, entrou em conflito com Antonio Carlos Magalhães, então o mais poderoso político da Bahia.  “Se ele está dizendo que eu soy ladrón, ele é mais ladrón do que eu”, disse em 1986 com sua sintaxe particular. A afirmação foi feita em entrevista na esteira do episódio em que ACM, então ministro das Comunicações no governo de José Sarney, agrediu o jornalista Antônio Fraga, então repórter da emissora de Irujo,  durante tumultuada votação no Clube Bahiano de Tênis.
O mesmo Irujo que criou o Bahia Hoje, primeiro jornal informatizado da Bahia, demitiu todos os funcionários que participaram de uma greve histórica no veículo, considerado dos mais modernos do país. ” Fecho, mas não atendo as reivindicações “, afirmou ele na época, segundo assessor, um inequívoco homem de esquerda.
Durante a paralisação, o jornal chegou a publicar, como manchete, que a prefeitura  iria derrubar todas as passarelas de Salvador.  Menos de dois anos depois,  o Bahia Hoje fechava as portas, combalido  por crises editorial e econômica e pelo desinteresse que Irujo começava a demonstrar pela política partidária até encerrar carreira em 2007.
Essa falta de apetite parlamentar logo atingiria a TV Itapoan, que  foi vendida para a Igreja Universal do Reino de Deus. Nos tempos da luta política, Seu Pedro, como era chamado pelos funcionários, costumava aparecer sobretudo em época eleitoral. Com os cabelos intrigantemente ralos, o que era atribuído a implante capilar, tinha outro diferencial. Usava literalmente sandálias da humildade e percorria todos os setores. Ele apertava mão a mão e, sempre olhando nos olhos, pedia voto a um por um na língua irujana, que poderia indicar uma desesperada tentativa de não se afastar das suas origens.
Como muitos que deixam o lugar onde nasceram  em busca de fortuna, aventura ou tangidos por circunstâncias de guerras e perseguições de toda ordem, a presumida aspiração do retorno não se concretizou com Pedro Irujo Yaniz. EIe morreu sexta-feira no Hospital da Bahia, em Salvador, após cirurgia para tratar uma fratura no fêmur, como consequência de uma queda.
 *Jornalista